Kristen Stewart e Robert Pattinson: na tela interpretam Bella e Edward. Foto: Divulgação
Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO - Há um fenômeno chamado Crepúsculo. A saga de vampiros criada pela escritora Stephenie Meyer formou toda uma geração de leitores. Não apenas os que leem, e o número dos leitores deve ser quase tão grande, senão maior, do que os que acompanham as aventuras de Harry Potter - as adaptações cinematográficas têm feito a cabeça de espectadores, principalmente jovens, ao redor do mundo. O primeiro filme da série fez 2 milhões de espectadores no Brasil. O segundo multiplicou este número por três - 6 milhões. Quantos espectadores atingirá Eclipse? O terceiro filme estreia à meia-noite e um. As lotações das salas estão esgotadas, e há muito tempo. Fãs-clubes compraram sessões inteiras. Um fenômeno brasileiro? Não, internacional - em Los Angeles havia espectadores acampados há uma semana em frente dos shoppings que começam a exibir o filme regularmente amanhã. Qual é o segredo de Crepúsculo?
A revista norte-americana People dedicou uma edição especial à saga Twilight. Na capa, naturalmente, Robert Pattinson, o astro de Crepúsculo, embora a foto dele mostre o rosto e a do outro preferido do público, Taylor Lautner, privilegie o corpaço do garoto que faz o lobisomem apaixonado por Bella (Kristen Stewart). Robert conta histórias interessantes. No ano passado, ele participou de um evento beneficente. Formou-se uma longa fila de mulheres dispostas a pagar US$ 2 mil para serem beijadas por ele. Em outro evento, uma mulher - madura, não uma adolescente - lhe perguntou o que deveria fazer para chamar sua atenção. Ele respondeu, sem pensar - tirar a roupa. Ela não vacilou. Imediatamente iniciou um strip-tease interrompido pela segurança do ator. O fenômeno extrapola as meninas. Atinge a faixa masculina e a série tem cada vez mais ação, combates entre vampiros (do mal, não a família Cullen, de Edward) e os lobos, com um olho nas mulheres maduras, que também se encantam com a love story, mas são elas, em geral, que cobram que o sexo seja incrementado e Edward e Bella partam logo para os finalmentes.
Existem hoje, provavelmente, mais livros sobre Robert Pattinson do que sobre Marlon Brando ou James Dean. Por que Taylor Lautner e ele mexem tanto com as plateias femininas? A saga Crepúsculo é um pouco a retomada da história de Romeu e Julieta. Os jovens se amam, mas Edward Cullen é vampiro e justamente por isso hesita em possuir Bella, porque sabe que a estará condenando a ser imortal, no pior sentido do termo, como ele. Jacob, ou Jake, inimigo mortal dos vampiros, pertence ao clã dos lobos. Oferece sangue quente a Bella. Ela chega ao terceiro filme indecisa entre ambos. Talvez o sucesso da saga venha daí, dessa divisão de Bella entre Edward, que lhe propõe casamento, e Jake, que lhe oferece seu calor, em vez de compromisso. O velho conflito entre instinto e repressão ganha nova versão para o público teen? Mas se é assim por que Crepúsculo mexe com outras faixas, outros públicos?
O terceiro episódio estreia amanhã, mas à meia-noite desta terça, 29, as salas já estarão cheias para que, no primeiro minuto de quarta-feira, Edward, Bella e Jacob reiniciem seu romance. Os críticos vão torcer o nariz, as cotações serão baixas, mas há outro aspecto interessante da saga que talvez valha considerar. A saga Twilight foi oferecida praticamente a todos os grandes estúdios de Hollywood, especialmente à Warner, parceira de Peter Jackson na série O Senhor dos Anéis e, atualmente, comprometida em encerrar a interminável história de Harry Potter. A Warner recusou a oferta, o que abriu a porta para que uma empresa independente, a Summit, assumisse o projeto. Esse aspecto ‘indie’ de Crepúsculo não é negligenciável, pelo contrário. Sem o dinheiro todo que a Warner poderia ter colocado em Crepúsculo, a Summit chegou lá.
A escolha do elenco foi fundamental, não apenas a do trio - cultuado - de protagonistas, mas a dos atores secundários, todos escolhidos para transformar o pacote de lobos em objetos de desejo. People dedica páginas e páginas a Kellan Lutz, Alex Meraz, Charlie Bewley, Chaske Spencer e Jackson Rathbone, todos descamisados para atender às necessidades mercadológicas da trama. Numa cena emblemática, à espera da batalha decisiva com os vampiros - decisiva neste episódio -, Bella está morrendo de frio, o gélido Edward não consegue aquecê-la e entra em cena Jake, que tira a camisa e, minutos depois, a jovem está fervendo diante dos olhos doloridos do amado impotente (no quesito aquecimento, bem-entendido).
CRÍTICA: Ninguém disse que se trata de arte
Além do elenco habitual (Dakota Fanning, etc.), Eclipse acrescenta sangue novo à série. Catalina Sandino Moreno faz agora Maria, uma vampira que iniciou um ciclo durante a Guerra Civil norte-americana. Xavier Samuel, como Riley, lidera as falanges de Victoria - Bryce Dallas Howard substitui Rachelle Lefevre, que teve de abandonar o papel. E Julia Jones carrega a responsabilidade de ser a única loba (Leah), numa alcateia predominantemente masculina (e sempre em ponto de bala). Nada disso tem a ver com arte, bem entendido, e nem é de arte que se trata. Mas a história é contada com razoável eficiência para satisfazer ao público consumidor. Chegamos ao ponto - todo o fenômeno Crepúsculo baseia-se no consumo. Mudam os diretores - David Slade substitui Chris Weitz - e não há nenhum sobressalto. Ninguém faz mais, mas também não faz menos. A magia, basicamente, vem dos atores. E há o romance ‘secreto’ de Robert Pattinson e Kristen Stewart. Eles formam a dupla ‘Brangelina’ do público adolescente. Foram jantar na Locanda Verde, uma cantina de Tribeca - não uma pizzaria qualquer, mas a frequentada por Beyoncé e Jay-Z - e a polícia teve de ser chamada para conter o tumulto nunca visto. Os jovens twittaram e rapidamente a área estava interditada. O fenômeno Crepúsculo também, vive da sua multiplicação graças a esses modernos meios de se comunicar.
A Saga Crepúsculo: Eclipse - Nome original: The Twilight Saga: Eclipse, Direção: David Slade. Gênero: Romance (EUA/2010, 135 minutos). Censura: 12 anos.
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